O dilema do anão nu da internet


Eu sei que a maioria de vocês entrou aqui querendo ver um anão nu. Se for esse caso, sacie-se acima. Mas que tal aproveitar a viagem e também ler um texto sobre o indivíduo em um mundo de rede social massificada?

Pra vocês dois que ainda estão comigo, deixe contar o que me aconteceu neste último fim de semana. Um amigo meu que trabalha em um portal me mostrou as ferramentas que esses grandes sites usam para maximizar a audiência. Eu achava que era eu que escrevia ficção científica, mas confesso que fiquei meio assombrado. Os serviços medem em tempo real o que está “bombando” nas redes sociais brasileiras, o que invariavelmente costuma ser notas de celebridades globais sendo flagradas em restaurantes japoneses do Leblon com moreno(a)s misterioso(a)s. Ou o casamento do Thiaguinho. Vocês não tem noção de como bombou o casamento do Thiaguinho.

O que mais me fascinou foi o Social Flow, um programa que determina através de algoritmos quando é o momento ideal para postar algo. Fez álbum de retrospectiva da Andressa Urach? Um robô analisa o quanto o termo “Andressa Urach” está pegando nas redes e ele posta sozinho no dia e hora que o termo está no pico, com maior potencial de viralizar. Eu passei um tempo agora de volta nas redações eu notei como essas ferramentas de maximização de clicks mudaram um pouco as discussões de estratégia editorial. A preocupação em estar na home ou “capa” do portal parecia menor, com uma ênfase maior em ficar bem rankeado nas redes sociais.

Eu voltava pra casa de madrugada e pensava como as escolhas editoriais pareciam estar caminhando menos para “as pessoas vão querer ler isso” e mais pelo filtro das métricas. Não critico jornalistas que pensam em métricas ou usam “big data” – se tem uma profissão que está lascada atualmente é a do jornalista – mas não pude deixar de pensar como estamos pensando cada vez mais como vetores de doença do que como jornalistas de fato. Até mesmo em “leitor” eu senti ouvi falar menos e mais em termos de ondas de interesse nas redes, monitoradas minuto a minuto.

Mas vamos ao que interessa: o anão nu.

Essas ferramentas me lembraram um caso emblemático que aconteceu comigo. Anos atrás escrevi uma resenha de um livro para o meu blog e escrevi algo como “acontecem coisas absurdas como entrar um anão nu do nada no meio da cena”. E o que aconteceu?

Pelos próximos anos o termo “anão nu” se tornou de longe o mais buscado pelos leitores para chegar no meu blog. E suspeito que eles não estavam procurando dissertações sobre as possibilidades metafóricas de anões pelados na literatura.

Isso me leva a um segundo caso que me marcou, envolvendo o Paulo Coelho e um poema turco. Vem comigo!

Anos atrás trabalhando na Livraria da Folha fiz uma matéria sobre O Livro de Dede Korkut, o grande poema de formação da nação turca – espécie de Os Lusíadas da Turquia – e que chegava pela primeira vez ao Brasil em tradução inédita. Eu levei cerca de 12 horas para fazer a matéria, entre ler o livro, pesquisar, entrevistar o tradutor, decupar entrevista e escrever. A matéria teve uns 300 acessos, o que para um site como a Folha é o mesmo que nada.

No mesmo dia que postei a entrevista do poema turco vi num site internacional a notícia de que tinham errado o nome do Paulo Coelho numa edição espanhola e escrevi a nota abaixo:

PauloCoehlo

Se eu disser que eu levei cinco minutos para escrever essa nota estaria mentindo, foi mais pra dois ou três e já estava no ar. A nota foi para a home da Folha e teve mais de 50 mil acessos só na primeira hora.

Pensando friamente nos acessos – estou olhando pra você, equipe de marketing – a matéria do Paulo Coelho foi 50.000/300= 166 vezes mais valiosa que a do Livro de Dedê Korkut. E proporcionalmente eu precisaria trabalhar 1.992 horas escrevendo sobre o poema turco para conseguir a mesma quantidade de cliques que a nota do “Paulo Coehlo”. São 83 dias ininterruptos.

A conclusão desses dois casos me bota pra pensar até hoje. Se fosse pelas métricas, valeria muito mais a pena eu ter um site de pornô anão do que um de literatura. Valeria muito mais eu requentar notas fáceis de assuntos que estão “trending” do que escrever longos textos sobre temas obscuros, porém interessantes. Valeria muito mais eu procurar uma profissão mais “mundo real” do que a de escritor.

Mas é aí que entra o lado humano da coisa. Eu acredito que é humano fazer a coisa do jeito menos eficiente porque esse jeito é seu. É escrever sobre poemas turcos e filmes esquecidos de ação dos anos 1980 não porque isso tem apelo, mas porque é seu. Você pode ser mais um na onda do casamento do Thiaguinho ou fazer algo diferente de verdade pra meia dúzia de malucos lerem.

Não acho que seja possível ignorar pressões de marketing – o dinheiro do aluguel tem que vir de algum lugar e não é de poema turco – mas acho importante nunca perder essa perspectiva. De que os cliques não medem o impacto que o que você escreve tem nas pessoas. De que se a gente cavoucar essa montanha de internet, gráficos e algoritmos de social media da multidão, ainda existem indivíduos soterrados ali embaixo. É neles que eu procuro pensar toda vez que eu escrevo.