Cascavel Especial de Natal: Noite Feliz

CascavelNatal

Veja aqui onde comprar o livro com todas as histórias do Cascavel!


Crônicas do Cascavel, dia 24 de dezembro.

Nesta data vou colocar de lado o consumismo e a superficialidade para resgatar o verdadeiro sentido do Natal: crianças boas ganham presentes e crianças más são espancadas em um saco, afogadas num lago e arrastadas para o inferno aos gritos pelo Krampus, o ajudante demoníaco do Papai Noel no folclore germânico.

É injusto como o Krampus é esquecido no Natal, considerando como a cada ano que passa o bom velhinho trabalha um pouco menos e o pobre do Krampus um pouco mais.

Acho que este ano ele merece uma ajudinha.

* * *

Já era uma tradição há duas décadas a festança de véspera de Natal na mansão dos Santiano, uma das famílias políticas mais tradicionais de São Paulo.

Mesmo para os padrões de casarões do Morumbi, a mansão Santiano era uma fortaleza. Visitantes precisavam passar por duas guaritas com homens armados apenas para entrar no condomínio. Depois ainda havia as muralhas com sentinelas da casa em si. O único acesso era um portão no qual todos os veículos que entravam e saíam eram revistados por seguranças educados, porém sérios, de poucas palavras e equipados com armamento automático. Dentro da propriedade, mais seguranças quietos como estátuas parados em pontos estratégicos.

Os Santiano eram o modelo de família perfeita.

O chefe da família era o senador Gabriel Santiano, um dos líderes da bancada evangélica. Ele tinha uma habilidade sobre-humana de manter um sorriso de campanha a cada segundo do dia, do sexo a quando cagava sozinho no banheiro. Assim como os lobos mostram os dentes antes de atacar, os políticos sorriem. Para o senador a vida em si era uma campanha. Menos público era o papel do senador Santiano de homem-forte do lobby do crime organizado em Brasília e sua preferência sexual por menininhos. Gabriel costumava espancá-los chorando depois de terminar por terem tentado ele com sua mera existência.

Sua esposa, Valkíria Santiano, se definia como mãe, esposa, filantropa e cristã. Uma socialite de presença constante nas colunas sociais paulistanas e dona de um sorriso tão onipresente quanto o do marido. Organizava captações de recursos para instituições de crianças carentes amplamente divulgadas na imprensa, cujo montante total não desviado era uma parcela de seu gasto mensal com roupa de grife e maquiagens. Humilhava diariamente os serviçais derrubando pratos, ou sumia com as próprias joias para acusá-los por roubo. Tomava antidepressivos para acordar, depressivos para dormir, todo álcool que conseguia botar as mãos para suportar o período intermediário.

O tesouro do clã era jovem herdeiro Augustinho Santiano, de oito anos. Educado em um colégio bilingue para filhos de diplomatas, tinha como principal hobby queimar formigas com a lupa. Encontraram recentemente o terceiro corpo de gato com a barriga aberta no vasto jardim da propriedade. Os psicólogos que aguentaram o tranco disseram que era só uma fase do garoto, que gostava também de ficar quieto observando os empregados de cantos escuros da casa. Os empregados tomaram o hábito de evitar Augustinho sempre que possível.

Por último, a matriarca Giovanna Santiano. Entusiasta da educação “das antigas”, fez da vida do filho um inferno na terra com uma combinação de espancamentos diários e terrorismo psicológico, apavorando-o desde pequeno sobre o inferno de chamas que certamente o aguardava em morte. Fazia a vida da enteada um inferno com constantes críticas e censuras. Fazia da vida do neto um inferno impondo rígidos horários e preces diárias. Nem a paralisação parcial dos movimentos, o Alzheimer, o câncer pulmonar avançado e os últimos treze anos em uma cadeira de rodas conseguiram torná-la menos controladora.

A família perfeita. Nas aparências para as eleições.

A mansão foi decorada com muito dinheiro e pouco bom gosto. Luzes piscantes de 1,99 dividiam espaço com lustres Swarovski de 70 mil reais. Fitas vermelhas natalinas “enfeitavam” paredes e quadros raros. Dezenas de papais noéis autômatos rodavam e dançavam. O mesmo CD cafona de clássicos natalinos de vinte anos atrás tocava no sistema de som com caixas espalhadas por toda a propriedade. A árvore de mais de três metros girava cintilante, coberta por bolas de cristal, estatuetas de renas, pinhas e uma estrela de meio metro de diâmetro pintada a ouro no topo. Uma neve tão falsa quanto a alegria dos convidados foi importada para cair lentamente na festa.

Os convidados começaram a chegar, recebidos por Gabriel e Valkíria com seus sorrisos impecáveis. Mais do que uma reunião de família, era evento de presença imprescindível para qualquer um que queria ser alguém na base aliada no governo, assim como donos de empreiteras, formadores de cartel, contrabandistas, juízes, ou todos que querem de alguma forma arranjar um jeitinho de mamar nas fartas tetas do orçamento da união. Em ano pré-eleição como aquele então, a quantidade ali de puxa-saco por metro quadrado era recorde na cidade naquela véspera de Natal.

Um homem destoava dos demais. Vestia uma camiseta preta simples e calça jeans rasgada, em contraste com a ostentação decadente dos demais convidados, com smokings de milhares de dólares e mulheres com casacos de pele em pleno verão brasileiro. E mesmo assim, sua presença dominava o lugar, olhares furtivos de fascinação e medo dirigidos a ele e aos três guarda-costas que o acompanhavam.

– Senhor Lasrio! Mas que prazer ter o senhor em minha casa! – falou Santiano abrindo os braços e o sorriso tubarônico – Fico honrado que o senhor tenha aceito o meu convite.

– Eu que agradeço, senador – respondeu Lasrio apertando ambas as mãos do senhor Santiano.

– Eu espero que o senhor se divirta muito em minha festa.

– Tenho certeza que será divertido acompanhar os acontecimentos desta noite.

– Ehm, sim nos divertiremos muito. E, senhor Lasrio, gostaria de aproveitar a oportunidade para conversarmos sobre sua contribuição, já de extrema generosidade, claro!, mas veja o senhor que em ano de eleição precisaremos garantir…

– Senador, fico contente que tenha apreciado minha humilde contribuição e eu garanto que o senhor terá todo o meu apoio financeiro. Mas hoje é Natal. Que tal discutirmos os detalhes em uma futura oportunidade?

– Claro. Claro! Sem dúvida, senhor Lasrio, por favor fique à vontade.

Os capangas de Lasrio e o Inevitável desalojaram as visitas dos sofás de um canto da sala apenas com seus olhares. E Lasrio se sentou em silêncio, tomando cerveja no lugar do champanhe da festa, E observou.

Se aproximava da meia-noite quando uma empregada de uniforme francês e salário muito do brasileiro se aproximou de Valkíria, que descrevia para outras senhoras de bem sua última temporada de ski na França.

– Dona Valkíria, é da entrada. Disseram que o Papai Noel chegou.

Meio zonza pela combinação de champanhe com rivotril, Valkíria demorou uns segundos para entender do que se tratava. Então lembrou. Claro. Da agência.

– Ai, que estupendo! Mande entrar, mande entrar! Augustinho, vem ver o Papai Noel, vem meu filho!

De cabelo entupido de gel e com um terninho branco que o fazia parecer o anão da Ilha da Fantasia, Augustinho estava com a faca do peru fazendo longas e profundas linhas na carne da ave. Não cortava para se servir. Não estava nem mesmo com fome. Gostava só de ficar cortando.

– Foda-se. A porra. Do Papai Noel – Augustinho respondeu apertando ainda mais a empunhadura da faca e olhando com ódio para a mãe.

Valkíria gargalhou tão alto que suas amigas deram um saltinho para trás, os olhos da socialite analisando freneticamente os rostos das visitas estudando suas reações.

– Ai filho, que palavriado feio!

Gargalhou mais.

– Vocês sabem como é nessa idade! Ele está “aborrecente”. Aborrecente!

Os convidados sorriram concordando por educação.

E então entrou o Papai Noel. Agências costumam contratar atores ou simplesmente senhores barbudos para visitar a rodo umas cinco a seis mansões na véspera de Natal dos endinheirados. Noéis de barba e barriga verdadeiras saem mais caro. Quer que anão vestido de elfo acompanhe? Tem custo extra, toda uma tabela na qual tanto de dinheiro compra tanto de fantasia. Esse ostentava um anão acenando e um farto saco de presentes.

– Quem aqui é o… – Papai Noel olhou para uma ficha em suas mãos – o Augustinho?

– Hahaha hahaha! – Valkíria aplaudia ensandecida – Vai lá filho! Vai lá dar oi para o Papai Noel.

Augustinho esperneou emburrado e precisou ser arrastado aos gritos pelo pai. O senador Gabriel teve a presença de espírito de – só por precaução – tirar a faca da mão do garoto antes de depositá-lo no colo do bom velhinho.

– Você vai aproveitar o Natal que eu paguei pra você nem que eu precise te encher de cintada!

– Hem, ho ho ho – interveio Noel – Não precisa falar assim, Papai. O Augustinho vai se comportar direitinho, não vai Augustinho?

– Eu sei que você NÃO é Papai Noel COISA NENHUMA! – Augustinho falou com uma entonação afetada de desdém infantil – Você é um PÉ RAPADO que o MEU PAI pagou pra se FINGIR de Papai Noel!

E Augustinho escarrou na cara do Papai Noel.

– Uma fase! – gritou Valkíria rindo – É só uma fase!

Noel ficou alguns segundos parado enquanto a saliva escorregava por seu rosto. Augustinho olhava de volta desafiador. Conhecia o tipinho subalterno. Ele não ia poder fazer nad…

– Escuta aqui, garoto – e Augustinho engoliu seco conforme a mão do Papai Noel amassou com força descomunal o seu terninho Armani, o hálito furioso a centímetros de seu rosto – Acho que está na hora de você ver os presentinhos que o Papai Noel tem aqui no saco dele. Não é, Augustinho?

Augustinho ficou quietinho de olhos arregalados.

– HEIN?! NÃO QUER VER OS PRESENTES AUGUSTINHO?

Augustinho fez sem parar que sim com a cabeça.

– Bom menino. Senhoras e senhores, todos vocês aqui são merecedores dos presentes que trouxe aqui hoje. Por favor uma salva de palmas para vocês!

Todos aplaudiram a surpresa agradável. Não era raro o senador comprar uísque para festas inteiras, ou dar um televisor para cada um. O que será que ele tinha reservado este ano? Problema é que nem o senador estava entendendo.

Papai Noel abriu tecido vermelho e tirou lá de dentro duas metralhadoras M60, com cintos de munição a se perder no saco do bom velhinho.

– Ouvi dizer que muitos de vocês aqui foram meninos maus neste ano.

– Que deselegante! – indignou-se Valkíria – Pois saiba o senhor que eu vou reclamar com a agência!
Cascavel arrancou a barba postiça, levantou a máscara e abaixou o tapa olho.

– Espera um minuto… – Valkíria falou apontando o dedo para o vigilante – isso quer dizer que você não é da agência?
Foi a última frase idiota que Valkíria emitiu na vida. Cascavel abriu fogo, corpos dilacerados dançaram antes de tombar. O tronco da árvore se partiu, esmagando um grupo que tentava fugir. O lustre Swarovski empalou um segurança que começava a sacar a arma. O sangue se misturava com cidra derramada e neve sintética. Um tiro veio da matriarca Giovanna, e Cascavel só foi salvo pela mira afetada pelo AVC. Atirou de volta dando cabo na senhora, nos convidados que restaram e nos seguranças que entraram.

– Central! – gritou um dos seguranças no rádio, balas ricocheteando à sua volta – Mandem reforços!

– Aqui é central, qual a descrição dos agressores?

– É um só – POW! – Merda! É um só.

– Qual a descrição?

– Caucasiano, com barba branca comprida e barriga grande. Veste vermelho e está atirando o que parecem ser gnomos explosivos.

– Papai Noel? Isso não é hora de brincar.

– E EU LÁ ESTOU BRINCANDO CARALHO?!

A batalha durou cerca de meia hora. No final restavam montanhas de corpos e Cascavel com sensação de dever comprido. Ele olhou para o chão e viu Augustinho o mirando com uma expressão catatônica.

– Senta aqui no colo do titio Cascavel pra gente continuar a nossa conversa – disse puxando o garoto – Então Augustinho isso é o que acontece com meninos que não se comportam.

Augustinho olhou tremendo para o único olho não coberto do vigilante.

– E o titio Cascavel percebeu que você não foi um bom menino também. E é pelo seu bem que você aprenda agora, porque se você crescer o continuar malvado… bom… basta olhar em volta para saber o que acontece.

Augustinho olhou tremendo em torno de si.

– Agora, por mais que você faça o filho do Satanás no “A Profecia” parecer só um menino arteiro, seria covardia eu bater em alguém do seu tamanho, Augustinho. Você entende?

Augustinho fez que sim com a cabeça.

– É por isso que quem vai bater em você é ele – disse apontando para o anão, que tinha tirado a fantasia de elfo e vestia camiseta do Slipknot sem mangas, revelando braços fortes o bastante para rasgar uma lista telefônica.

– Lembra de mim do Natal passado, moleque?

Um ano para uma criança de oito é uma eternidade. Lembrar de alguém que maltratou um ano atrás para alguém que fazia isso em média três vezes antes do café da manhã – como o Augustinho – não era tarefa fácil. Mas o anão logo conseguiu refrescar a memória do garoto.

Enquanto se divertiam Cascavel olhou para o chão de novo. O senador Gabriel engatinhava de quatro rumo à saída. O vigilante o virou de barriga para cima com um chute. Estava ferido apenas na dignidade. uma mancha de urina ainda crescendo em suas calças de 10 mil dólares.

– V-você t-tem ideia de quem eu s-sou? – perguntou o senador.

– Claro que tenho – respondeu Cascavel – Por que você acha que eu vim?

– Mas p-por que eu?! A cidade está ch-cheia de gente p-pior que eu!

– Está na sua vez. Desculpe a demora, mas a demanda está corrida.

– Não! Espera! Não atira! Espera! O Lasrio! Eu te entrego o Lasrio! Você quer o Lasrio, não quer!

A pupila de Cascavel se dilatou.

– Onde está o Lasrio?! – ele perguntou.

– Ele estava aqui na festa! Eu juro! O filho da puta sempre me deu calafrios mesmo! Fica dizendo que é Deus, pois então você é o Diabo! Se matem logo os dois, que se foda! Estava ali naquele canto! Bem ali!

Cascavel olhou para o lugar apontado. Minutos atrás quando ele começou a atirar não havia ninguém ali. Agora lá estava Lasrio sentado tranquilo no sofá, tomando uma cerveja, cercado por seus guarda-costas.

– Desgraçado – murmurou Cascavel.

– Isso, olha ele ali! É ele mesmo! O Lasrio! – O senador gritava – Então eu posso ir? Eu te ajudei, não ajudei, eu posso ir, não posso?

– Pode – Cascavel disse ao cortar o corpo do senador com uma rajada de chumbo – Para o inferno.

Lasrio jogou longe sua lata de cerveja e começou a aplaudir.

– Você sabe mesmo animar uma festa – Lasrio disse.

– Sei como terminar com uma também.

– Não duvido – Lasrio se levantou e andou em direção ao vigilante.

– Você tentou me matar – Cascavel falou – Então você é o maluco que se acha um deus do crime?

– Eu sou um deus. Aqui eu sou um deus. O deus do Novo Mundo.

– Me responde uma coisa, Jeová, um deus consegue desviar do chumbo quente das minhas amigas aqui?

– Por que você não tenta descobrir, Cascavel?

O vigilante levantou as duas M60. Lasrio andou até bem perto do Cascavel, parando a centímetros das armas.

– Qual o problema, Cascavel? – perguntou Lasrio – Não consegue apertar o gatilho?

– Como você faz isso? – perguntou Cascavel, incapaz de ordenar seus dedos a atirar.

– Você vai entender tudo antes de terminar.

Cascavel suava frio. Ficou imóvel por mais de um minuto.

– Eu vou achar um jeito, desgraçado. Eu vou te matar nem que seja a última coisa que eu faça.

– Não vai ser a última coisa que você vai fazer, mas ainda vamos nos encontrar mais algumas vezes, Cascavel. E então você vai ter as respostas que tanto quer, apenas para descobrir que não as queria. Mas, eu estou atrapalhando a festa. Eu preciso ir, mas meus amigos aqui ainda podem ficar e entreter você. Feliz Natal, Valter.

Cascavel gelou.

– Como você sabe o meu nome?

– Eu sou um deus, lembra? Deuses sabem de muita coisa.

Ele estalou os dedos e seus três guarda-costas tiraram os sobretudos e começaram a se alongar, se preparando para o combate.

– Eu me pergunto se eu também não consigo atirar em vocês – disse Cascavel.

Cascavel apertou o gatilho e derrubou o sujeito do meio, o mais baixo e atarracado, que vestia uma máscara de hóquei.
– Aparentemente eu consigo.

Os dois remanescentes não tardaram em tomar cobertura. O com um farto bigode e sorriso sádico no rosto devolveu disparos, forçando Cascavel a derrubar a mesa de jantar e se esconder atrás. O vigilante percebeu que o segundo dava a volta pelos flancos. Cascavel ainda tinha algumas granadas de gnomo sobrando e as usou com bom efeito para tirar o oponente da cobertura.

Ia finalizá-lo quando o outro saltou do lado como um tigre. Ele estava desarmado, mas não parecia precisar de armas. Deu um chute que chegou a rachar a mesa de mármore e sem se importar com a dor engatou uma segunda que arrancou a metralhadora das mãos de Cascavel e uma terceira que o lançou voando contra a parede.

Cascavel sentiu uma pontada no peito. É, a costela fraturou com certeza.

– Você sangra como um porco – o gigante disse, enquanto seu companheiro de bigode observava sentado ao lado.
– É e você bate como uma moça – falou Cascavel.

O homem riu maquiavelicamente e engatou uma nova combinação de chutes que devolveram Cascavel ao chão.
– Uma moça de dois metros e que toma anabolizante bovino – Cascavel completou consigo. Olhou em volta em busca de qualquer coisa que pudesse usar como arma. Apenas corpos tombados e presentes destruídos.

E o peru destroçado. Cascavel colocou a mão dentro da ave e os dois vilões olharam entre si e riram da cena.

– Já está louco – disse o grandalhão – Mas eu vou dar a morte de presente para você.

– É, feliz natal pra você também, desgraçado.

Cascavel atirou a farofa do enchimento nos olhos do careca. Pelos gritos do cara por sorte ela devia ser apimentada. Ele tentou dar alguns chutes às cegas, mas Cascavel conseguiu puxar aquela trança maldita para derrubar o homem, pegar uma das pernas e mordê-la. Cascavel esmagou o pé de apoio do inimigo com uma pisada, deu uma joelhada no saco, uma cabeçada no nariz, torceu as falanges, enfiou os dedos no olho do oponente, quebrou um copo de cidra e enfiou na garganta do sujeito. Tem horas que você não só precisa lutar sujo como usar todos os truques sujos ao mesmo tempo.

Cascavel levantou a guarda virou as palmas para cima e fez um sinal para que o guarda-costas restante se aproximasse.
– Vem, filho da puta – ele disse – Vem que está na sua vez.

O bandido sacou uma faca de combate e avançou, trocando-a de mão para confundir Cascavel. Dava investidas tentando desestabilizar o vigilante, alguns golpes de raspão tirando fios de sangue de Cascavel.

– Eu não vou te matar com um golpe só, herói – disse o bigodudo rindo – Eu vou te cortar pouco a pouco a noite inteira.
Cascavel se virou para fugir e o vilão avançou num salto. Mas era uma armadilha. Cascavel se jogou no chão e usou o pé para impulsionar o adversário ainda mais adiante, arremessando-o contra as pontas afiadas do lustre caído. O grito do vilão ecoou por alguns instantes depois que ele foi perfurado pelos suportes de metal.

Lasrio bateu palmas.

– Muito bom. Você não desaponta mesmo, Cascavel.

Cascavel se levantou. Seu rosto estava amassado, cortes por todo o corpo e a costela quebrada queimava de dor.
– Eu não sei como você faz isso – ele disse – Mas eu vou descobrir. E vou achar um jeito de te matar.

– Não se preocupe, Cascavel. É como eu disse, você vai entender tudo antes de terminar.

Lasrio foi embora assoviando tranquilamente e sendo seguido pelo Inevitável, sem que Cascavel conseguisse impedi-lo. Sem que ele conseguisse querer tentar impedi-lo.