Fui conhecer a biblioteca do sr. Lucchetti


Cheguei no começo da tarde e andei de cima a baixo tentando achar a campainha do portão de aparência insuspeita em Jardinópolis, interior de São Paulo, pois duas numerações diferentes se alternavam de forma curiosa na fachada. Optei por bater palmas de frente ao portão e em breve ouvi um “já vai” vindo do fundo.

Fui recebido por Marco Aurélio Lucchetti – vulgo “Marquinhos” e filho do sr. Lucchetti – e pelos olhares suspeitos de quatro gatos ariscos. Na cozinha, lá estava ele, me estendendo a mão em um gesto elegante e abrindo um sorriso ao agradecer a minha visita e perguntando como fui de viagem. Apertei a sua mão e também me adiantei e lhe dei um abraço. Para qualquer escritor é uma honra conhecer em pessoa o sr. Lucchetti.

Porque o Lucchetti escreve o quanto eu e você respiramos. O NY Times definiu ele em 2014 como uma “fábrica humana de ficção pulp” e é difícil discordar. São mais de 1,5 mil livros, 300 hqs, 25 de roteiros de longas e incontáveis artigos. E eu confesso que além de conhecer o ídolo eu também queria visitá-lo para, leitor voraz que sou, ver como é a biblioteca pessoal de uma fábrica humana de ficção pulp.

Marquinhos foi quem me levou depois do cafezinho para ver a biblioteca, que começava no fim do corredor. Logo eu estava feliz da vida xeretando os títulos nas estantes mais altas que eu, repletas de livros protegidos por cortinas transparentes de plástico. Foi quando Marquinhos acendeu uma luz e o meu queixo caiu. Aquela “biblioteca” era só a entrada para a biblioteca de verdade que tomava outra casa inteira.

Aí que eu entendi a confusão da dupla numeração da fachada. O espaço de uma antiga locadora foi anexado à residência para dar espaço à biblioteca e aos arquivos pessoais de Lucchetti. Porque Lucchetti é o tipo de pessoa que aluga duas casas, uma para ele morar e outra para os seus livros morarem.

Perguntei quantos livros havia ali e me disseram que não sabiam, mas que a estimativa mais recente apontava para 30 mil livros e 70 mil revistas. Eu não duvido. Contei por alto mais de 50 estantes de metal de mais de dois metros de altura – muitas delas com dois lados preenchidos por dicionários, livros de arte, música e cinema; clássicos da literatura, títulos de faroeste, ficção científica, fantasia, detetive, horror e HQs. A imagem que saltou na minha cabeça foi a do sebo com a melhor curadoria do mundo.

Pausa para um sanduíche de presunto e prosear por algumas horas sobre vampiros, fantasmas, Sherlock Holmes, Poe, hipnose, zumbis, mausoléus, licantropia, detetives durões e fêmeas fatais. Eu pensava antes que Lucchetti tinha nascido no país – e século – errado para um escritor que ama os gêneros de horror e policial. Afinal como sonhar com ruas tomadas por névoas misteriosas no país do sol e verão? Como escrever sobre detetives com longos sobretudos num calor que pede bermuda? Como ser admirador do corvo no país do urubu?

BettyBoop

Mas ouvindo o homem falar ali na minha frente eu mudei de ideia, Lucchetti nasceu sim no lugar e na hora certa. Se ele aparecesse na Inglaterra do final do século 19 ele seria outro – excelente – escritor da Inglaterra do final do século 19. Mas é precisamente por ser um peixe fora d’agua que a perspectiva de Lucchetti é única. Ele é uma espécie de astronauta vitoriano que explora o nosso mundo de dentro de um escafandro steampunk invisível. Seus olhos podem passar por praias ensolaradas, mas sua mente vê um castelo gótico iluminado pelo luar de uma noite perpétua e lobos uivando ao fundo. Sua vida teria sido muito mais fácil em outras condições, mas um lado egoísta em mim se sentiu feliz que esse não foi o caso. Lucchetti é o outsider, o outro, o mutante, o estranho. Ele É o corvo que veio morar entre os urubus.

Pernoite em um quarto repleto de relógios tiquetaqueando incessantemente – assim como os outros que tomam os corredores e paredes de toda a casa. Nada que não seja contornado com plugues de ouvido, meu truque infalível para o bom sono de minha época de repórter da madrugada. No dia seguinte após o café, Marquinhos chega com mais um boneco da Betty Boop da coleção da banca – completaram 60! – e o rosto de Lucchetti acende como um garotinho de 85 anos ao analisar a estatueta.

Depois foi hora de fuçar os arquivos pessoais do ficcionista. Ele me mostra mais estantes com originais cuidadosamente encadernados, com peças de rádio, roteiros, HQs, belíssimos desenhos próprios, colagens, pilhas de textos inéditos que nunca encontraram publicação. A meticulosidade impressiona. Tudo tem um prefácio datado sobre quando foi escrito e em que contexto foi escrito. Um calhamaço em particular marca título, data e nome da editora – inclusive com endereço da época – de cada um dos seus 1547 livros.

E, sobre a mesa, a fiel máquina de escrever que Lucchetti usa desde os anos 1950. Olhar pra aquele amontoado de metal e plástico me emocionou. Ele é a prova da capacidade da mente humana de sonhar, de viajar por mundos sem sair do lugar, e poucas peregrinaram tanto quanto a de Lucchetti. Em meio às pilhas de seus trabalhos de ficção, ficou claro para mim que aquele que eu tinha conhecido em pessoa não era o Lucchetti, aquela carne e osso eram só parte dele. O Lucchetti real vive em um Castelo da Mente, e a única forma de vislumbrá-lo de verdade é lendo o que ele escreve.

Conforme estava no ônibus de volta eu lancei um olhar para trás eu vi o céu do fim de tarde escurecendo do vermelho amarelado do horizonte ao zênite negro, onde as primeiras estrelas davam as caras sobre Jardinópolis. E pensei que em algum lugar ali embaixo estava o sr. Lucchetti, o Marquinhos, os relógios barulhentos, as Betty Boops, os gatos ariscos – uns que até se aventuraram a receber uns carinhos meus – os milhares de livros e mais de meio século catalogado de uma vida dedicada a escrever. Tenho certeza que outras visitas vão acontecer, mas eu soube que aquela primeira tinha sido especial. Eu entendi ali que eu nunca vou esquecer o dia que fui conhecer a biblioteca do sr. Lucchetti.