Fahrenheit 451 – por Ray Bradbury (#1)


Considerado um dos maiores livros de Ray Bradbury, Fahrenheit 451 é ambientado um uma sociedade futurista na qual os livros são proibidos e “bombeiros” responsáveis por queimar os exemplares remanescentes. Essa é a profissão de Guy Montag, que começa a questionar seu papel depois de entrar em contato com uma vizinha adolescente que lê secretamente. E ele próprio se torna um criminoso leitor de livros contrabandeados.

O mais surpreendente de Fahrenheit 451 é como essa premissa poderia ser uma liçãozinha prepotente contra a censura ou sobre a Importância de Ler Livros. Os objetivos são nobres, mas se você quer passar uma mensagem recomendo o Whattsapp e não literatura. Como toda obra de arte que faria falta se fosse queimada, Fahrenheit 451não quer te dar respostas. O livro quer que você faça perguntas.

A questão central não é que livros são queimados. Isso é apenas o sintoma mais dramático de uma doença maior: de que a sociedade permite, que ninguém tem interesse em ler em primeiro lugar. As únicas fontes de distração dos cidadãos em Fahrenheit 451 são esportes ou novelões que se passam em televisores do tamanho de paredes inteiras. A velocidade da TV não permite que você possa parar para pensar, apenas que engula aquela massa de entretenimento como passarinhos que aguardam de boca escancarada o alimento já regurgitado pela mãe. Desse entretenimento insípido de pessoas que literalmente falam com as paredes nasce uma sociedade incapaz de questionar.

“Na noite passada eu pensei em todo o querosene que eu usei nos últimos dez anos. E eu pensei sobre os livros. E pela primeira vez eu percebi que havia uma pessoa por trás de cada um dos livros. Uma pessoa teve que pensá-los. Uma pessoa demorou muito tempo para passá-los para o papel”.

A esposa de Montag, Mildred, é um exemplo. Ela não consegue se comunicar sobre nada além de melodramas de folhetim ou do que ameace sua condição financeira. Ela é uma verdadeira pessoa-gado, descrita com “uma catarata invisível atrás das pupilas”, que teme qualquer coisa diferente, incapaz até de sentir ou pensar sem direcionamentos da televisão ou de autoridades. Montag descobre como ele e ela não conseguem se conectar porque no final eles não sabem sua própria história. E sem saber a sua história, você não sabe quem você é ou o que quer.

Hoje em 2015, a sociedade descrita em Fahrenheit 451 parece mais assustadoramente próxima do que quando o livro foi lançado em 1953. A internet encurta ainda mais o nosso limiar de atenção para textos e vídeos progressivamente mais curtos e mais simples. Mais do que nunca, hoje nós somos mais inteligentes – temos acesso a um oceano de informação na ponta de nossos dedos – mas somos menos sábios – não sabemos o que fazer com as informações.

“Os livros são apenas um receptáculo no qual guardamos um monte de coisas que tínhamos medo que poderíamos esquecer. Não há nada de mágico neles. A magia existe apenas no que os livros dizem, como eles costuram juntos os pedaços do universo em uma vestimenta para nós”.

E não temos memória. A timeline das nossas redes sociais ditam a pauta do dia, que vídeo engraçado está bombando para assistirmos, com o que notícia devemos indignar-nos, que meme vai virar a piadinha recorrente por um dia ou dois até cair em esquecimento. Mais real ainda, Fahrenheit 451 lembra nossos “tribunais de rede social”, um grande estímulo para a autocensura, como aponta o capitão Beatty:

“Quanto mais população, mais minorias. Não vá provocar os amantes de cachorros, os amantes de gatos, médicos, advogados, comerciantes, chefes, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, os do Brooklyn, irlandeses, pessoas do Oregon ou México. As pessoas nesse livro, nessa peça, nessa série de TV não representam reais pintores, cartógrafos ou mecânicos. Quanto maior o mercado, Montag, menos você enfrenta a controvérsia”.

“Os negros não gostaram do Little Black Sambo. Queime. Os brancos não se sentem bem com Uncle Tom’s Cabin. Queime. Alguém escreveu um livro sobre tabaco e câncer de pulmão? Os fumantes estão chorando? Queime o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag”.

Fahrenheit451x

Ler é fundamentalmente importante para a sabedoria, mais do que qualquer outra forma de arte. “Eu acho que os motoristas não sabem o que é a grama, ou flores, porque eles nunca as veem devagar”, diz a adolescente Clarice em Fahrenheit 451. Ler é um trabalho solitário. Depende de você em silêncio deixando que as suas ideias absorvam as do autor, as contestando, aceitando ou adaptando. Ironicamente, o velho papel é a milhares de anos capaz de uma transmissão de pensamento digna da ficção científica.

A edição que eu li do selo Flamingo Modern Classics também tem uma belíssima abertura de Bradbury sobre o livro, escrita em 2003. Em particular achei interessante como ele escreveu o livro enfurnado em uma biblioteca e como teve dificuldade para encontrar um editor de revista que publicasse Fahrenheit 451 em fascículos. O único que aceitou foi um jovem Hugh Hefner para a recém-criada Playboy.

Você não pode fazer os outros pensarem. Caso contrário você é só mais um ordenando as pessoas-gado sobre como elas devem ser. Mas acredito que o livro dá uma boa receita:

“Numero um, como disse, é qualidade de informação. Número dois: tempo para digerir. E número três: o direito de conduzir as suas ações baseadas no que aprendemos da interação dos dois primeiros itens”.

“Você não pode fazer as pessoas ouvirem. Elas precisam vir no seu próprio tempo, tentando entender o que aconteceu e porque o mundo explodiu debaixo sob seus pés”.

E se essa hora vier, os livros vão estar esperando.