Eu menti para o meu pai sobre o cometa Halley

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Era fevereiro de 1986, eu tinha 6 anos. O meu pai me levou para ver o cometa Halley.

O meu pai tinha a capacidade de tornar coisas corriqueiras em Um Acontecimento. Um simples almoço de família virava um evento com degustação de iguarias. Numa viagem para a fazenda ele fez uma cartela de pássaros da região com pontos pela raridade, criando um jogo entre os amigos sobre quem via as aves mais raras durante as férias. Imagine então a balbúrdia que ele fez para ver um cometa que só aparecia de 70 e tantos anos.

Não sei se todos os detalhes foram factualmente assim, e não me importa. Às vezes como as coisas sobrevivem na nossa memória é tudo o que importa. Fomos só eu e ele para uma pousada no interior de São Paulo, que por algum motivo era o melhor lugar para se enxergar o cometa. Eu lembro que o hotel fazenda estava capitalizando forte na febre do Halley, tinha até uns outdoors do cometa colorido com um rosto feliz.

O cometa poderia ser visto a olho nu, mas sendo o meu pai do jeito que era, ele ainda comprou uma luneta. Era noite e fomos no escuro para uma colina a uns 50 metros do nosso chalé. Eu, garoto urbanóide, lembro como o céu parecia muito mais brilhante sem a poluição luminosa da cidade. A via láctea cortava o céu e eu perguntei se aquilo tudo era uma estrela gigante e o meu pai disse que era um monte de estrelas juntas.

Aí ele montou a luneta, apontou para o céu e ficou procurando nela o cometa enquanto eu ainda estava entretido tentando entender como que um monte de estrela junta podia virar uma nuvem luminosa como a via Láctea. Aí ele falou que tinha encontrado o cometa na luneta e me chamou.

Eu olhei e não vi cometa nenhum, só mais estrelas. Ele encostou o olho de novo na lente, mirou melhor e me colocou de novo para olhar. Só vi estrela. A cena se repetiu algumas vezes e eu não via cometa nenhum. Eu não sei se era muito novo ainda, se confundia o cometa com outras estrelas e vi o Halley sem nem saber, ou se a luneta não estava tão bem apontada, mas eu não conseguia ver o diabo do cometa. Chegou uma hora que eu menti e falei que tinha enxergado. Eu lembro que ele encostou a mão no meu ombro, eu tirei o olho da lente e vi que ele estava sorrindo. E ele me disse:

“Talvez você veja ele de novo daqui a 76 anos. Eu não vou.”

Eu lembro que na hora eu fiquei mais chocado com a ideia que eu poderia viver 76 ANOS, quando com 6 de idade cada semestre durava uma década. Mas depois o que ficou remoendo na minha cabecinha foi como o meu pai sabia que ia morrer. Com aquela idade eu já sabia o que era morte, mas acho que ainda me parecia algo distante, que acontecia com as outras pessoas ou na TV, não com quem a gente conhece.

Agora é 2015 e eu tenho 36 anos. Faz quase dez anos que ele morreu. Eu achei que um dia a dor e a saudade iriam embora, mas nunca foram. Você aprende a viver com elas. Na verdade acho que são maiores ainda agora, porque eu dou um valor à companhia dele que não dava quando mais novo.

Lá por 2024 o Halley vai estar na metade da sua viagem e começar a voltar pra perto da Terra. Eu vou ter 45 anos. É impressionante como aqueles 76 anos que pareciam para mim eras quando tinha 6 agora estão quase chegando na metade.

Décadas se passam e vira e mexe eu me pego pensando se devia mesmo ter mentido sobre ter visto o cometa. Quem sabe se tentássemos mais duas ou três vezes eu tivesse visto mesmo. Mas eu era tão novo. E eu lembro de ter tentado. Eu não queria ter mentido, mas eu não queria ter desapontado o meu pai por não conseguir ver o cometa. Ele achou que eu vi e talvez seja isso que importa. Às vezes como as coisas sobrevivem na nossa memória é tudo o que importa. No final eu não estou nem aí para o Halley, e o Halley não está nem aí pra mim.

Em 2062 o Halley vai estar de volta. Se ainda estiver por aqui eu vou ter 83 anos. Talvez a profecia do meu pai se concretize e eu chegue a ver ele “de novo”, talvez não. Sei que se eu ver uma parte de mim vai ter mais uma vez seis anos e estar ao lado do meu pai. Sei que se eu tentar ver e não conseguir de novo vou lembrar dele mais ainda.

Halley