Conversações com R. F. Lucchetti – por Rafael Spaca (#3)


Para leitores deste blog, o escritor R. F. Lucchetti dispensa apresentações. O autor de mais de 1500 livros, 300 HQs e 25 roteiros de cinema é um dos maiores contribuidores para o gênero de horror e mistério no Brasil. Infelizmente, Lucchetti é também um dos muitos artistas injustiçados do nosso país sem memória, ficando décadas sem conseguir editar até ser “redescoberto” no ano passado e ter suas obras relançadas. Leia a resenha do primeiro exemplar da série, Máscaras do Pavor ou a entrevista que fiz com ele no UOL.

O livro Conversações com R. F. Lucchetti (Editora Verve), foi feito a partir de entrevistas do escritor com o radialista Rafael Spaca ao longo de cerca de cinco anos. A obra é um fascinante vislumbre dos bastidores da mente de Lucchetti, que sempre se sentiu mais confortável falando através da sua ficção do que em entrevistas.

Chama a atenção o fato de que, para alguém que se considera “a negação da oratória”, Lucchetti é surpreendentemente franco sobre sua carreira. Quando o autor de bestsellers como o Fantasma do Tio William e O Crime da Gaiola, além de um dos principais roteiristas do cineasta José Mojica Marins, é perguntado se ele se considera um artista popular, responde: “O artista popular é aquele citado frequentemente pela imprensa. Por acaso, eu sou?”. Quando inquirido se é difícil ser esquecido, rebate. “Não sei. Porque nunca fui lembrado.”

Apesar da franqueza, não há um tom de saudosismo, de autopiedade ou de tentar buscar culpados no discurso do escritor. Conversações com R. F. Lucchetti mostra as memórias de um artista que já fez paz com a sua própria guerra.

“Houve um tempo que eu me considerava, sim, um injustiçado. E isso chegava a magoar-me. Hoje, não mais, pois tenho consciência de estar pagando um ônus pesado por ter nascido em país errado. O Brasil não reconhece ninguém… a não ser jogador de futebol ou cantor sertanejo.”

E é difícil não concordar com o diagnóstico de Lucchetti. Em outros países sua obra – assinada por uma série de pseudônimos – não passaria desapercebida dessa forma e arrisco dizer que muito provavelmente ele seria um milionário. Lucchetti paga um ônus duplo, não apenas por ser um escritor em um país de alfabetismo sofrível e desgosto histórico com a leitura, como escreve histórias de horror e mistério, gêneros não considerados “tradicionais” do Brasil.

Outro ponto forte de Conversações com R. F. Lucchetti é as lembranças de como o germe da obsessões por histórias de mistério nasceu cedo em Lucchetti. Quando criança, não se interessava por jogar bola ou empinar pipa como os outros garotos. Particularmente tocante é o relato de sua reação ao ver seu primeiro conto publicado, em um jornalzinho de bairro de São Paulo quando ainda era criança.

“Ver meu primeiro trabalho publicado com letra de imprensa foi uma sensação indescritível. Com o jornalzinho na mão, fiquei dando voltas pelo bairro, com uma vontade imensa de dizer a cada transeunte: ‘Olha, este conto é meu! Fui eu quem o escreveu!’ Meus olhos estavam banhados de alegria. Eu nem conseguia ler além do título. Era um sonho impossível que se realizava. Isso aconteceu no longínquo 31 de outubro de 1942, um sábado. E, desde então, aprendi que é aos sábados que os milagres ocorrem.”

É também muito interessante ouvir o lado do escritor com relação a sua relação com José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Lucchetti escreveu para Mojica “apenas” roteiros de 15 longas, 58 episódios de programas de TV, 7 gibis, 3 radionovelas, uma minissérie e um projeto de novela. As entrevistas dão voz ao ponto de vista de Lucchetti sobre diversos acontecimentos controversos, como a revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão, idealizada e escrita por Lucchetti, mas tirada por Mojica do autor e da editora original após três exemplares.

É preciso dar crédito também a Rafael Spaca pela apuração. Ele aponta durante a entrevista tantos detalhes sobre a vida de Lucchetti que chega a surpreender o próprio escritor. Conversações com R. F. Lucchetti é um relato de uma vida dedicada a criar histórias acima de tudo. E uma tentativa de corrigir a injustiça com esse artista que, se não recebeu o devido reconhecimento no passado, ainda o pode no presente e no futuro.

“Como gostaria de ser lembrado no futuro?”
“O futuro vai dizer. Menos como nome de rua. Acho ridículo.”

Li o livro, inda inédito, por um arquivo cedido por Spaca para o blog. Conversações com R. F. Lucchetti será lançado em São Paulo no dia 30 de março às 19h no Reserva Cultural (Avenida Paulista 900). Você pode falar com R. F. Lucchetti, que adora ter novos amigos na internet, em sua página no Facebook.