Como Falar dos Livros que não Lemos?, de Pierre Bayard (#18)

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“Eu nunca leio um livro que vou resenhar, isso te dá preconceitos” – Oscar Wilde

“Existe mais de uma maneira de não ler, das quais a mais radical é não abrir nenhum livro”. Essa primeira frase do primeiro capítulo já dá o tom irônico que permeia Como Falar dos Livros que não Lemos? (Lançado no Brasil pela Objetiva, mas esgotado), uma obra que por trás de uma superfície de deboche esconde uma teoria surpreendentemente profunda de como nossa sociedade, e cada um de nós, deve se relacionar com os livros.

O autor Pierre Bayard comenta ainda no início que, na infeliz posição de professor de literatura francesa na Universidade de Paris, se deparou diversas vezes com o desafio de ter de comentar livros dos quais apenas ouvira falar. Salvo de questionamentos embaraçosos devido ao fato de que boa parte de seus alunos também jamais tivera passado os olhos pelas obras contempladas no curso, Bayard decidiu se aprofundar no tema da não-leitura, que segundo ele é tão mal visto quanto corriqueiro em círculos intelectuais e acadêmicos.

O motivo disso é muito simples. Se alguém não fizesse mais nada na vida além de ler, do berço ao túmulo, ele não passaria por mais do que algumas dezenas de milhares de obras. Quase nada se pensarmos nos milhões e milhões de livros que foram escritos pela humanidade até hoje, e dos milhares que são lançados a cada novo ano. Dessa forma, nem o mais fervoroso dos leitores tocou sequer uma ínfima parcela da produção intelectual da humanidade e até os maiores literatos possuem em sua formação lacunas de clássicos considerados canônicos.

Tais lacunas se tornam segredos guardados a sete chaves, pois, na sociedade ocidental, não ler é considerado motivo de vergonha e chacota. Porém, Bayard defende que discorrer sobre livros que não lemos devia ser a atitude mais natural do mundo, afinal, como foi dito, ninguém entre nós leu quase nada na realidade. O autor propõe que mais importante do que ler ou não todos os clássicos, é fundamental possuir uma “biblioteca coletiva” com livros que são criados assim que entram no conhecimento das pessoas, e não quando são lidos de fato. Ou seja, muito mais vale alguém que saiba pensar sobre ideias e livros – e aqui vale inventar tomos que não existem ou falar de clássicos que nunca o interlocutor viu – do que ser uma enciclopédia ambulante de citações e passagens.

Formas de não-ler encontradas em livros não lidos

“Como Falar dos Livros que não Lemos?” define diversas formas de não-leitura, como obras que não conhecemos, ou que folheamos, ou ouvimos falar, ou ainda que esquecemos, e fornece análises de como se portar em encontros com literatos, com o autor ou até para tentar impressionar um grande amor. Cada capítulo é relacionado com um exemplo encontrado na literatura – alguns até mesmo de livros que Bayard afirma que leu de fato.

Assim, o autor menciona o bibliotecário da sátira “O Homem sem Qualidades”, de Robert Musil, que conhecia todos os tomos de uma biblioteca com milhões de volumes sem nunca ter aberto nenhum deles, pois apenas lia livros que ensinam a catalogar outros livros. O autor toca as curiosas relações de Montaigne e Oscar Wilde com os livros. O primeiro que, devido à sua memória notoriamente falha, esquecia tudo o que lia após uns poucos anos e o segundo que sequer abria obras que ia resenhar para “não se deixar influenciar” por seu conteúdo. Até Umberto Eco faz uma aparição nas considerações do autor, uma vez que o escritor italiano, em seu romance “O Nome da Rosa”, inventou com riqueza de detalhes como seria a “Comédia de Aristóteles”, obra que foi perdida ainda na antiguidade.

No final, “Como Falar dos Livros que não Lemos?” é um ensaio bem-humorado que propõe uma forma mais leve de encararmos nossas deficiências intelectuais e merece ser lido ou não-lido por todos os amantes da literatura.

Matéria escrita originalmente para a Folha Online através da Livraria da Folha.