A trajetória de uma ideia foda


 

Já aconteceu mil vezes.

Uma ideia foda te atinge como um raio. Você nunca espera quando. Pode ser lendo, quando está quase dormindo, no meio do almoço, na correria do trabalho, dentro da banheira com shampoo no cabelo. Ela não está nem aí, vai entrando na sua mente como aquele conhecido espaçoso que sem cerimônia chega na sua casa, arranca os sapatos e já vai abrindo a geladeira. Invariavelmente a ideia foda escolhe invadir a sua cuca quando você está na mesa do bar com os comparsas. E sempre alguém diz ela, a mesma frase: “alguém devia escrever isso”.

Depois você desaba na cama, sonha e ronca, o Sol nasce de novo, a sobriedade dá as caras e o mundo real bate na porta. As prioridades, a correria, a carreira, renovar o RG, a família, o PlayStation. Muita coisa entra na frente da ideia foda, que parece agora um sonho distante. E ela se arrasta para sabe-se lá qual cemitério cósmico as ideias inacabadas vão para morrer.

Não no caso de um escritor. A ideia foda continua sendo aquele conhecido espaçoso, e agora se aloja de cuecas vendo TV e tomando cerveja no sofá da sua mente se recusando a ir embora. É terrível ter a ideia foda de um texto e não colocá-la no papel. Pode ser preciso fazer outras coisas antes, ir para trampo e resolver os rolos da dita vida real, mas a ideia foda continua martelando como uma espécie de constipação mental que só se alivia quando é escrita. E aí você escreve, pelo menos uma premissa ou sinopse.

Até aqui foi a parte fácil.

Não acho que exista uma diferença de “talento” ou “sensibilidade” entre um escritor e qualquer outra pessoa. Todo mundo tem incontáveis ideias fodas de histórias na cabeça, a única diferença para um escritor é que esse se dá ao trabalho de fisicamente escrevê-las. E escrever demora. E escrever é um saco. Porque assim que a ideia foda vai pro papel ela não parece mais tão foda. Você se sente uma criança de jardim da infância tentando copiar com giz de cera o teto da Capela Sistina. Todas as suas limitações aparecem cristalinas no papel quando você tenta realizar o idealizado, o tom não está certo, você não conhece o tanto que achava do assunto. Você fracassa miseravelmente.

E aí você dá alguns dias, com a ideia foda ainda morgando no seu sofá mental – junto de outras ainda que foram se esparramando na caruda! – até que você decide tentar se digladiar com aquele primeiro texto de novo. Você reescreve, e ainda está longe de ser a Capela Sistina, mas, vá lá, consegue fazer com que o que era uma bosta fique pelo menos medíocre. E reescreve de novo, falhando toda vez, mas escrever é mesmo nunca vencer e chegar na ideia foda, mas tentar falhar o mínimo possível.

Até que você consegue que o texto fique aceitável, ou até achando bom o resultado. Com alguma sorte, atinge 70% do quociente de fodice da ideia original. Você passa para alguns leitores beta em quem confia. Eles dão sugestões de mudanças, que você pode acatar ou não. Quando as pessoas falam PORQUE gostaram ou não de um texto elas quase sempre erram feio, mas quando falam SE gostaram elas estão sempre certas. É como uma macarronada, você pode discutir a textura do molho de tomate e a estética do queijo ralado o quanto quiser, o que é indiscutível é se você quer repetir a pratada ou parar no meio.

E aí você publica, pode ser livro impresso ou conto no blog, o que importa é que mais gente leia, gente que você não conhece, gente que não está nem aí para os seus sentimentos e só quer saber se a sua macarronada é boa. E quando escuta dos leitores de volta, você percebe que um trecho do texto que você achou que ficou fraco e arrastado é o favorito de alguém. Que passa batido pelas pessoas a genialidade das passagens pelas quais você se considerava secretamente o novo Hemingway. E se você pensava que era pai ou mãe da ideia foda, percebe que foi ela que te usou de trampolim desde o começo para infectar mais gente. Agora a cria não é mais sua. Agora cada um interpreta ela do jeito que quer, e não do jeito “certo” que você pensou. E tudo bem. Agora ela está viva.

E daí acontece de novo, como mil outras vezes.

Uma ideia foda te atinge como um raio.