A cor do vestido: uma perspectiva daltônica

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Sou daltônico. Descobri numa aula do colegial quando a dona Sandra de biologia mostrou um teste de Ishihara (à direita) e disse que “os daltônicos não veem esse número dentro do círculo”. Eu levantei a mão e perguntei: “que número?” e a classe caiu na gargalhada.

600px-ishihara_9O daltonismo garantiu que no recente frenesi sobre a cor do tal vestido – você sabe qual – eu fosse marcado em múltiplas postagens por amigos e conhecidos perguntando que cor eu via no dito cujo.  Para mim, mais interessante do que a cor “real” do vestido – algo que não existe, toda cor é baseada na interação entre pigmento, luz e interpretação neurológica – é justamente a curiosidade intensa que as pessoas mostraram, muito parecida com quando descobrem que eu sou daltônico.

A reação padrão que encontro, assim como relatos que ouço de colegas de categoria, costuma ser perguntar “mas que cor você vê aqui?” enquanto o interlocutor aponta para o objeto verde ou vermelho mais próximo. Confesso que no começo me incomodava – na minha fase adolescente costumava retrucar falando “sei lá que cor é essa, você por acaso pede para um paraplégico saltar pra ver se ele não consegue mesmo?”. Hoje levo de boa e respondo o melhor que consigo e as pessoas até parecem ficar desapontadas se eu não erro o bastante.

“A discussão talvez seja mais filosófica do que biológica. Duas pessoas podem concordar que o céu é azul, mas será que elas veem o mesmo azul ou cada uma apenas aprendeu a chamar cores diferentes que enxergam no céu de azul?”

Pra mim a viralização da imagem do vestido se deu porque, assim como a reação padrão ao daltonismo, ela mostra como a percepção da realidade é relativa, baseada dos olhos e interpretação do cérebro. Até entre não-daltônicos, é impossível provar que vemos as cores da mesma forma. A discussão talvez seja mais filosófica do que biológica. Duas pessoas podem concordar que o céu é azul, mas será que elas veem o mesmo azul ou cada uma apenas aprendeu a chamar cores diferentes que enxergam no céu de azul?

E talvez a visão seja apenas a ponta do iceberg. Quem garante que sentimos os mesmos cheiros, que os sons que ouvimos são os mesmos? Certamente explicaria um dos grandes mistérios não resolvidos da ciência: a existência de fãs de axé ou sertanejo. Devem estar ouvindo alguma coisa que eu não escuto ali.

Abaixo você vê exemplos de como eu vejo alguns quadros famosos, as imagens lado a lado são idênticas para mim. (Fonte: blog Color Lovers).

3musicianspicasso_colorblin armand_colorblind thescream_colorblind warhol_colorblindO daltonismo é muito mais comum em homens do que nas mulheres, representando entre 8% e 12% da população masculina, porque ele é provocado por genes recessivos localizados no cromossomo X. Ou seja, o gene é dominante nos homens e recessivo nas mulheres. No meu caso, como meu pai não era daltônico, o gene veio pela parte da minha mãe, mas ela não era daltônica, apenas portadora do gene.

Existem diversos tipos de daltonismo, desde a monocromacia (vulgo sujeito que só enxerga preto e branco) à dicromacia (uma cor específica faltando). O meu tipo de daltonismo se chama deuteranomalia, versão mais comum que constitui metade dos casos de daltonismo. Eu confundo tons muito próximos, como verde limão e amarelo, roxo e azul marinho, marrom e verde escuro. Violeta e lilás para mim são lendas.

As pessoas se surpreendem que eu tenha descoberto apenas na adolescência o daltonismo, mas a verdade é que a condição influencia muito pouco no cotidiano. Consegui tirar carteira de motorista – mas não poderia tirar uma profissional – de vez em quando eu passo vergonha comprando uma camiseta rosa achando que é azul clara. Quando jogava Call of Duty mandava chumbo nos meus companheiros de equipe, porque não via a diferença entre as cores dos times no mapa. Veja mais sobre a minha experiência como gamer daltônico num texto que escrevi para o UOL Jogos.

“É muito difícil um daltônico falar sobre “o que ele vê de diferente” – outra pergunta clássica – porque nós afinal não vemos diferença nenhuma!”

É muito difícil um daltônico falar sobre “o que ele vê de diferente” – outra pergunta clássica – porque nós afinal não vemos diferença nenhuma! Mas se você quiser um gostinho do que é ser daltônico, recomendo o site Vischeck, que “daltonifica” qualquer imagem que você suba. Eu obviamente não vejo diferença nenhuma, mas segundo descrição de uma ex-namorada é mais amarronzado, como se eu tivesse “um filtro de merda” ao ver o mundo. Ou quem sabe vocês que têm um filtro de LSD. Vai saber.