1: Alguém se divertiu

Casca1


Primeiro capítulo de Imaculada Concepção, uma história cyberpunk. Lançamento em breve.

“O próprio toque do telefone soava como más notícias.”

“Você perdeu – duas – horas da sua expectativa de vida.”

Era a sexta vez que o Kraftwerk 2000 no pulso de Cascavel zumbia, após cada pequena dose engolida pelo detetive. A máquina era o processador de dados mais avançado de quarenta anos atrás, meia dúzia de gerações obsoleta àquela altura. Ela tinha um design industrial robusto em formato de caixa, um monitor de baixa resolução e um teclado com a tinta gasta pelo uso. O negócio teve que ser cirurgicamente implantado no antebraço de Cascavel, bem diferente dos processadores de realidade aumentada não invasivos que faziam sucesso entre a garotada.

Cascavel não tinha certeza de como a máquina estimava o quanto ele ainda viveria. Ele ouviu que usava um algoritmo avançado para combinar estatísticas populacionais com dados tirados da corrente sanguínea do usuário. Ele só sabia que a coisa era precisa, ou pelo menos foi o que o bom doutor garantiu. Cascavel apertou um botão e contemplou os números piscando na tela monocromática.

Um ano, dois meses, seis dias, uma hora e sete – agora seis – minutos de expectativa de vida restante.

Nada mau, Cascavel tinha tempo para mais alguns gorós. Ele já tinha chegado bem mais perto, afinal. Ele ganhou um ano extra comprando um coração sintético Brasletric-Yamaha. A amortização de cem anos era filha da puta, de fato, e os juros altos o bastante para comprar dez órgãos extras para o banco. Esse é o muito literal preço da imortalidade: quando você vive potencialmente para sempre, corporações bancárias podem te manter endividado por séculos – e até reanimar a sua carcaça para coletar se você dever muito. A vida custa e a morte é de graça.

Mas, sobre esse coração, que beleza ele era. Cascavel até deu uma de louco e comprou o modelo de esporte Jensen série 7 junto de um fígado artificial em liquidação. “Três vezes mais resistente à insuficiência hepática do que um órgão natural!”, garantia o manual do usuário. Portanto Cascavel naturalmente entendeu aquilo como permissão médica para beber por cinco. Ele apontou para o copo vazio e o Wang o preencheu com o destilado caseiro que ele fazia. Bá-Jú, algo do tipo. Uma tradicional receita chinesa aditivada com isótopos radioativos suficientes para te fazer brilhar depois de você engolir algumas doses. O detetive virou o copo transbordante em um único movimento, contraindo o rosto conforme a bebida queimava a sua garganta.

“Você perdeu – duas – horas da sua expectativa de vida,” bipou o Kraftwerk 2000.

Então o telefone sobre o balcão tocou. Ele estava coberto por uma fina camada de poeira grudenta, assim como o resto do Boteco do Wang. Fato que dava um certo charme decadente ao estabelecimento, assim como bactérias ainda desconhecidas pela ciência moderna. O telefone tocou e tocou, e nem Cascavel nem Wang moveram um músculo. De alguma forma, o próprio toque do telefone soava como más notícias.

“Você não atende?” perguntou Wang. “Ser pra você, laowai.”

“Como você sabe?” replicou Cascavel.

“Porque você único que ainda usa telefone. E único que tratar meu bar como escritório particular!” gritou Wang. “Quando você comprar comunicador móvel? Eles barato! Então pessoas te achar fácil o tempo todo!”

“Por isso mesmo que eu não compro,” Cascavel disse. “Tá, eu atendo essa porcaria. Me passa o cordão.”

Cascavel pegou o fio do telefone e plugou na abertura USB do seu processador. Imediatamente uma imagem apareceu em seu Kraftwerk 2000.

“Já bebendo, Cascavel?” o detetive podia ver o característico sorriso tubarônico do comissário Sakurai mesmo no monitor de baixa resolução. “Você nem está nem mais esperando dar meio-dia?”

O comissário Sakurai trabalhava para a Proctech Inc, uma das maiores corporações de policiamento com contratos de segurança com a administração de Megasampa. Comissário era um termo meio fantasioso, uma relíquia de quando ainda havia um governo não-privado, e ele ainda tinha uma polícia. Hoje em dia equivale a um gerente do médio escalão na hierarquia corporativa, mas Sakurai gostava de se ver como uma mistura de xerife com executivo nível C.

“Sempre é meio-dia, comissário,” o detetive falou enquanto Wang o servia mais baijiu. “Em algum lugar.”

“Sabe, é disso que eu gosto em você, Cascavel. Você pode perder a sua dignidade, mas nunca o seu senso de humor. Eu tenho outro freela pra você.”

“Eu imaginei que você não tinha me telefonado por causa da minha personalidade adorável,” Cascavel disse enquanto virou outro drink e Kraftwerk 2000 educadamente subtraiu duas horas de sua expectativa de vida. “Mas você sabe que eu estou deveria estar aposentado, comissário.”

“Pessoas como você nunca se aposentam, Cascavel. Pelo menos não até encontrarem um forma de pagar a conta do boteco com sarcasmo.”

Cascavel tinha que conceder que o desgraçado tinha razão.

“Me fala mais desse freela,” Cascavel disse cortando com a sua faca kukri um bolovo de Soylent verde que o Wang o serviu. Cascavel não tinha certeza o que colocavam naquilo, mas, rapaz, o gosto era bom.

“Nós encontramos dois corpos.”

“Sei…”

“Americanos.”

“E…”

“No Novo Bronx.”

“Poxa, é uma tragédia e tudo mais, comissário, mas dois presuntos gringos prontos pros recicladores soam como um dia na média do Bronx. Se a gente agora está chorando cada vez que isso acontece, você vai ter que aumentar minha taxa pra que eu possa comprar umas glândulas lacrimais novas.”

“Caramba, como você é frio, Cascavel. Você não acabou de arranjar um coração novo?”

“Sim, arranjei. Um preto.”

Sakurai deixou escapar uma risada desconfortável.

“Além do mais, duvido muito que eles tenham seguro de proteção,” Cascavel continuou. “A Proctech está tendo acessos de generosidade querendo ajudar a comunidade?”

“Claro que eles não têm seguro. Nós fomos contratados pela administração municipal.”

Isso era ainda mais estranho. Megasampa era atualmente controlada pela Omni Cities, braço de administração de cidades da Corporação Omnibank. Eles tinham fama de serem uma espécie de utopia de contadores, de mão fechada até para os padrões de um conglomerado financeiro. E não era como se o Novo Bronx estivesse cheio de consumidores. Ou investidores. Ou eleitores.

“Um dos corpos é de uma mulher, ela está estraçalhada. Mais do que o normal. Alguém se divertiu com ela.”

“E o outro?”

“Uma decapitação comum até onde vimos.”

“Você acabou de descrever uma dúzia de vendas de lacrimas que deram errado. Ainda parece como uma manhã normal do gueto pra mim.”

“Não é só isso, tem desenhos por toda a parte. Você sabe, essa macumba louca aí que você lida. Os medidores das redes sociais estão fora de escala, digamos apenas que a comunidade local está um pouco inquieta. Também mais que o normal.”

Cascavel lembrava a última vez em que o Novo Bronx ficou mais inquieto que o normal. Foi preciso dois meses de lei marcial e uma intervenção federal do exército para acalmar as coisas. Agora tudo fazia mais sentido.

“E, deixa eu adivinhar, o prefeito em atividade está em cima de você porque inquietação é ruim para os negócios. E ele não quer inquietação num ano de renovação de contrato para a Omni Cities.”

“É,” Sakurai não conseguiu esconder a ansiedade. “Algo assim. Você imaginou então?”

“Como eu disse, comissário, você não me ligou por causa da minha personalidade adorável.”

“Tá, tudo bem Cascavel, eu te liguei porque você é eficiente, está feliz agora? Agora vai lá e resolve essa. A sua taxa de sempre vai ser depositada na sua conta em 30 dias úteis.”

“Mas só tem uma coisa que eu não estou entendendo, comissário,” Cascavel falou enquanto nacos de comida saltavam de sua boca.

“O que é?” Sakurai respondeu em um tom monótono, ansioso para desligar.

“É que eu acredito que você antes considerava os meus métodos… como é mesmo que você colocou no relatório do caso Prandoni? Ah, é, ‘questionáveis e sem base provada nas ciências forenses’ e você acabou de me chamar de ‘eficiente’ agora. Eu estou um pouco confuso.”

“Não vamos entrar nessa, C…”

“Eu fico pensando… eu era ‘questionável’ alguns meses atrás e agora sou ‘eficiente’ e tudo o que eu fiz foi coçar o meu saco esse tempo todo. Então eu não deixo de ficar curioso sobre como foi que eu fiquei tão ‘eficiente’ de repente.”

“Olha, Cascavel…”

“Ou talvez eu não tenha ficado mais eficiente. Talvez é só você que ficou mais desesperado.”

“O que você quer que eu diga, Cascavel?” Sakurai soltou. “Você quer que eu peça desculpas? Desculpa. Pronto.”

“Desculpa é o caralho,” Cascavel disse enquanto pediu para o Wang outro bolovo de Soylent. “Eu vou receber o dobro da minha taxa desta vez, despesas de investigação não-inclusas. E a minha bunda não vai sair deste assento até eu ver metade do depósito na minha conta. O resto você pode me pagar depois de eu resolver o seu caso.”

“O-o que?! Son of a bitch, você sabe que todos os pagamentos precisam ser aprovados no orçamento antes…”

“O que eu posso dizer, comissário? Esse é o preço que você paga por eficiência hoje em dia. Tenho certeza que você pode achar um jeito de cobrir a minha taxa por uma das suas contas corporativas ‘alternativas’. Seja criativo.”

Sakurai não gritou mais, mas a sua imagem parecia expelir fumaça como em um desenho animado antigo.

“Tá certo, Cascavel. Só faz o abracadabra aí que você costuma fazer, esse negócio precisa ser resolvido ou o prefeito em atividade vai me carcar, e daí você sabe o que vai acontecer.”

“Aí você vai me carcar, e eu vou carcar algum outro filho da puta, assim por diante. Roda cármica e tudo mais.”

“Exatamente. Eu vou mandar um hover patrulha te buscar e te levar pra cena do crime. É em um lugar chamado Hotel galante. O seu contato lá vai ser a tenente Chaves. Ela vai te explicar tudo.”

Sakurai se aproximou da câmera, e seu rosto ficou oblíquo e assimétrico no monitor pixelado.

“E eu não estou brincando, Cascavel. Esse caso precisa ser resolvido de verdade. Eu estou enterrado nessa e isso quer dizer que você também está. Ah, e, é, feliz aniversário detetive.”

A imagem de Sakurai desapareceu do processador de Cascavel e o detetive desplugou o USB, mastigando contemplativo enquanto Wang limpava um copo com sua saliva.

“Ê, laowai,” Wang disse. “Hoje mesmo seu aniversário?”

Wang morava no Brasil já fazia trinta anos, mas o seu sotaque cantonês era tão pesado que parecia que ele tinha acabado de descer da nau de gravidade. Cascavel podia jurar que ele fazia esforço consciente pra se afundar no estereótipo do chinês que não fala direito só para provar alguma coisa.”

“É sim,” respondeu Cascavel.

“Shengrì kuàilè! Parabezinações!”

“Valeu, Wang. Mas eu não acho que eu tenho muito o que celebrar. Eu vou trabalhar pra um comissário nervosinho que vai tentar me ferrar em cada oportunidade e depois eu vou jantar com a minha família. E eu não sei o que é pior.”

“Ê, não ser assim, laowai. Aniversário ê quando você nascer de novo. Nova vida pra você! Aqui, leia a sua sorte num biscoito de tapioca, sim? Eu ter o certeza que ser bom. Se não for, próximo baijiu de graça pra você.”

Cascavel pegou o doce oferecido por Wang e o quebrou ao meio. Um dragão holográfico saltou do biscoito e sobre ele se materializou uma frase em neon colorido: “Tenha muita cautela ao aceitar novos desafios profissionais!”

Wang balançou a cabeça e disse algum palavrão em cantonês, conforme ele enchia novamente o copo de Cascavel.

“Olhe em lado positivo, laowai. Baijiu de graça pra você. Shengrì kuàilè!”

“É, o lado positivo,” Cascavel repetiu antes de entornar o copo.

“Você perdeu – duas – horas da sua expectativa de vida.”

***

O hover patrulha da Proctech pousou bem em frente do Boteco do Wang. Os policiais precisaram confirmar duas vezes com a central até acreditarem que aquele era o investigador especial que eles deviam buscar.

Pra começo de conversa, ele parecia mais bêbado que um quati. Ele usava um tapa-olho e tinha tatuado no pulso direito três espirais interligadas que formavam o triskelion da tradição da magia hermética. No antebraço esquerdo, um processador antiquado de primeira geração e uma mão protética. Ele vestia um sobretudo marrom de vinil com a cor desbotada pela chuva ácida e uma faca kukri no cinto. Seu rosto estava tomado por rugas e cicatrizes. Seu cabelo era completamente branco.

Cascavel pediu para que um dos policiais o ajudasse a pegar o equipamento em seu escritório, convenientemente localizado acima da toca do Wang. Ele deixou o prédio depois de alguns segundos com o policial atônito carregando um cobertor de lã sintética, um “gravador” antigo e um jarro de argila. Eles foram pisando na rua levemente inundada até o hovercarro.

Chovia em Megasampa, como sempre. Devido às mudanças climáticas, sempre ao menos garoava abaixo das permanuvens que flutuavam sobre a cidade. Megasampa, a expansão urbana formada quando as regiões metropolitanas de São paulo e Rio de Janeiro se encontraram no meio do século 21. Ela ainda cresce, louca e descontrolada como um mofo de concreto e aço que toma a maior parte do sudoeste do Brasil. A megalópole termina no leste nas “águas” do Oceano Atlântico, uma massa de poluição e eflorescência algal densa o bastante para você correr sobre ela, caso não tenha medo de ser engolido por alguma enguia mutante. E ao oeste, as grandes muralhas que tentam retardar o avanço da desertificação e das tempestades de areia do centro do país.

O hover decolou lentamente, desviando da miríade de cabos conforme ele se erguia entre as Arcologias dos Shoppings-Estado, de centenas de metros de altura. Caixas de metal e concreto que dominavam o horizonte da megalópole. Os Shoppings-Estado começaram como centros comerciais que receberam áreas residenciais, mas evoluíram para comunidades autosuficientes. Depois da destruição das Guerras das Compras dos anos 2070s, algumas Arcologias receberam independência legal. Cada uma criou suas próprias leis, e cada uma afundou em sua própria subcultura. A maior parte das duas bilhões de almas de Megasampa nasce, cresce, vive, envelhece e morre sem nunca sair da caixa onde nasceu.

O hovercarro chegou na altura das permanuvens, o cheiro sulfúrico e azedo era forte o bastante pra invadir o veículo pressurizado, lacrimejando o olho de Cascavel. Passando a névoa poluída, Cascavel foi cegado por alguns segundos conforme seu olho se ajustava. O sol, brilhando vermelho e antigo através da estratosfera. Cascavel cultivou pensamentos nostálgicos conforme ele observava a paisagem escarlate cheia de nuvens cortadas por torres corporativas, Arcologias construídas pela metade e abandonadas, e chaminés metálicas expelindo chamas tóxicas.

E ele viu o elevador espacial, subindo das nuvens como um pé de feijão mágico e se perdendo no azul profundo do céu. Meio século de construção, custando centenas de trilhões de cryptoreais superfaturados, sobrevivendo a uma dúzia de escândalos de cartéis, a perda de milhares de vidas de construtores e dois ataques a bomba dos Confederados. Ele prometia ser uma das maiores realizações de engenharia da humanidade quando inaugurado em alguns meses. Ele prometia acesso barato para as colônias ultramundo de Nova Brasilis para as massas de colonizadores em potencial que se abarrotavam na velha Terra. Ele prometia ser uma literal escada ao céu para bilhões que precisavam desesperadamente de uma nova vida.

Cascavel olhou para as poucas estrelas tímidas que apareciam no zênite escuro do céu próximas ao topo do elevador espacial, mas ele não viu nenhum paraíso ali. Apenas um outro purgatório.

***

Depois de quase duas horas presos no trânsito voador apesar das sirenes, eles chegaram ao Hotel Galante. O hover ainda não tinha nem pousado quando foi atingido pela primeira pedra.

“We want justice! We want justice!” gritava uma multidão na direita.

“Frack you po-lice” bradava um grupo na esquerda.

“Murderers!” clamou uma única voz, aplaudida pelo resto da turba, que se uniu em um coro. “Murderers! Murderers!”

As forças de terra da Proctech retaliaram lançando contra a horda de imigrantes microondas “pacificadoras”, mas conforme um lado recuava do calor “intolerável, porém humano”, os protestantes de trás apenas ficaram mais enfurecidos e invadiram o campo de “negação ativa” de contenção tesla, onde o hover pousava. O cheiro de carne queimada subiu conforme as primeiras pobres almas do grupo caíram na carga elétrica “não-letal” e foram pisoteadas pelos manifestantes de trás.

Um dúzia de protestantes segurou o carro patrulha conforme ele ainda pairava a alguns metros do chão. O piloto tentou subir, mas o peso extra carregou o veículo para baixo, danificando a turbina frontal direita.

“Desliga! Desliga!” gritou o policial ao piloto, enquanto Cascavel se agarrava ao assento traseiro. “Desliga a porra da outra turbina ou a gente vai rotacionar e estolar.”

O piloto obedeceu e o hover caiu como um pássaro morto, esmagando alguns manifestantes. O resto da turba comemorou e escalou o veículo, alguns deles vestindo bandeiras dos Confederados como capas. Eles começaram a bater nas janelas com ferramentas improvisadas e Cascavel podia apenas observar as rachaduras se espalhando no vidro a cada batida. Ele e os dois policiais gritaram juntos quando um coquetel molotov aterrissou sobre o capô, o calor das chamas começando a queimar o parabrisa.

De repente, um som ensurdecedor. Cascavel viu pessoas gritando, mas não ouvia nada além de um zumbido constante. Manifestantes confusos caíam e fugiam com orelhas ensanguentadas da “sensação auditória desconfortável” causada pelos pulsos sônicos. Tropas de choque Proctech em armaduras elétricas avançaram, “pacificando” os retardatários com bastões de choque de “atordoamento”. Um dos soldados abriu o teto do hover patrulha como uma lata de sardinha e ajudou Cascavel e os dois policiais a saírem.

“Bem-vindos ao Novo Bronx,” a voz do soldado soava metálica e alienígena de fora do exoesqueleto.

Alguém conduziu Cascavel à entrada do Hotel Galante. Quando as tropas humanas se afastaram da aglomeração, os drones começaram a soltar “estimulante negativo”, o gás de epilepsia agente amarelo.

***

Hotel Galante conseguia aparentar decadência até para os padrões do Novo Bronx. O letreiro de neon piscava “Ho el G la te” e o último “e” estava torto e prestes a cair. O cheiro de esgoto nativo das ruas alagadas de Megasampa era complementado por um forte aroma de mofo assim que se entrava na estrutura. Era um hotel “das antigas”, no sentido que ele ainda tinha quartos de verdade ao invés das cápsulas de sono dos estacionamentos humanos. Isso também significava que o Hotel Galante não era necessariamente procurado por pessoas querendo apenas dormir.

“Onde está a tenente Chaves?” Cascavel gritou ao policial assim que entrou no lobby. Ele e os dois acompanhantes ainda estavam parcialmente surdos devido aos pulsos sônicos.

“Quarto 52-C,” o homem respondeu. “Quinto andar.”

O elevador velho parecia uma armadilha de engenharia, portanto Cascavel foi com calma pelas escadas, descansando um pouco a cada andar. Ele precisava guardar um dinheiro para novos pulmões, ou largar de fumar aqueles funis elétricos bolivianos. Por sorte ele ao menos conseguiu hackear o seu Kraftwerk 2000, ou ele apitaria a cada tragada. Cascavel finalmente chegou ao quinto andar e encontrou uma mulher em um uniforme de oficial Proctech na entrada do quarto.

Ela tinha um monóculo digital inundando seu olho direito com informação, uma Auto 9 no coldre do cinto e uma espada Vorpal nas suas costas. Diferentemente do processador de informações de Cascavel, o dela projetava elaborados hologramas de alta definição em seu antebraço. O detetive podia apenas estimar que tipo de augmentações biológicas e mecânicas ela tinha, mas ela certamente parecia robusta o bastante para correr através da parede. Cascavel notou que a mão de tiro era mecânica, possivelmente todo o braço, e o seio esquerdo dela havia sido removido. A tenente Cassandra Chaves tinha o típico ar predatório encontrado nos jovens e ambiciosos. Por séculos, a investigação policial no Brasil consistiu em torturar um pobre coitado qualquer para confessar o que precisava ser confessado, para que tudo ficasse bonito em relatórios e estatísticas. Mas Cassandra era uma raça diferente de tira. Ela realmente usava método científico para investigar. Até em Megasampa alguns casos de alto perfil precisavam, como o comissário Sakurai havia colocado, serem resolvidos de verdade.

“Você é o investigador especial?” a pergunta de Cassandra era também uma afirmação de descrença.

“Sim, sou eu. O meu nome é Cascavel,” respondeu o detetive.

“O comissário disse que você viria,” Cassandra falou conforme seus olhos corriam incrédulos pela face e corpo de Cascavel. Ela se contraiu involuntariamente como se sua mera visão fosse suficiente para contaminá-la com decrepitude. “Mas ele não parecia estar muito feliz.”

“Nós temos um relacionamento de amor e ódio,” disse Cascavel. “Com ênfase no ódio.”

Cassandra não riu, seus olhos frios ficaram furiosamente estudando Cascavel.

“Eu não gosto disso nem um pouco. Eu estou cuidado desses casos estranhos desde o começo e quando eu peço suporte especializado ele me envia… seja lá o que você for.”

Não era a melhor recepção, mas pelo menos era honesta. Cascavel podia respeitar isso.

“Bom, eu estou com tudo sob controle agora,” ela disse finalmente. “Então por que você não senta e descansa os ossos?”

“Você descanse os ossos,” respondeu Cascavel. “Mas ao fazer isso, saia da frente pra que eu possa fazer o trabalho que você deveria estar fazendo.”

“Olha, vovô, eu não tenho tempo pra lidar com você. Então, se você quiser evitar problemas, por que você não vai embora?”

Cascavel ligou o seu funil boliviano e disse:

“Que bom que você falou isso, novata, porque a gente pode ter essa conversa logo de cara e deixar algumas coisas claras. Eu estou vestindo cuecas mais velhas do que você. E eu resolvi mais casos deixados em aberto por espertalhões do seu tipo do que você tem pelo no meio das pernas.”

Cassandra estava brava agora, Cascavel podia sentir.

“Então esse não é o primeiro caso estranho que você encontrou, e eu aposto que você está correndo em círculos baixando no seu cérebro arquivos de ocultismo, daemonologias medievais, práticas de umbanda, magicka xamãnica, bibliografias de espiritismo, até rituais de búzios, e você ainda não tem a menor ideia sobre o que você está lidando. O Sakurai não teria me chamado se ele não precisasse de verdade. Estou ficando quente?”

“Prossiga,” Cassandra concedeu depois de uma pausa tensa.

“Eu poderia, mas seria desnecessário. A questão é, novata, me chame de ‘vovô’ mais uma vez e eu vou realmente deixar você lidar sozinha com esta merda. Agora, seja um boa garota, saia da frente e deixe os adultos trabalharem, está bem?”

Cassandra parecia furiosa, mas ela saiu do caminho. E Cascavel entrou no quarto acompanhado dos dois policiais.

***

O quarto tinha os mesmos padrões de qualidade que Cascavel aprendera a esperar do hotel Galante. O chão tinha marcas antigas de pegadas, rachaduras escalavam as paredes, um ventilador semi-quebrado girava lentamente como que entediado, um vaso de flor de plástico ficava sobre a mesa suja ao lado da cama. O neon do outro lado da rua estava tão perto que o lugar tinha um constante brilho piscante de roxo e vermelho, mesmo com as luzes apagadas. No banheiro, Cascavel encontrou mofo tão desenvolvido que não o surpreenderia se ele logo chegasse à Renascença. Pareceria um buraco típico não fossem os dois corpos dilacerados sobre a cama.

Um dos policiais com o cobertor, gravador e jarra de argila, vomitou. Cascavel puxou os dois pelas orelhas e os expulsou do quarto por profanar a sua cena do crime antes de prosseguir com sua análise.

A vítima masculina estava intacta salvo pela cabeça, que não estava em nenhum lugar. Cascavel viu o que pareciam ser pegadas de sangue deixadas por pés descalços indo da porta até a cama, mas eles eram pequenos demais para serem de alguma das vítimas. Elas pareciam ser de uma criança. Havia cinco velas sintéticas em torno da cama, formando um pentagrama invertido.

A garota estava nua. Seus olhos não tinham íris ou pupilas, sua boca estava escancarada como que em um grito silencioso. Ela parecia envelhecida e estava branca igual leite, quase transparente, como uma água-viva. Clássica overdose de lacrima. Cacete, eles podiam chamar isso de overdose se não tinham ideia do que a substância era? A imprensa tentou adotar o nome que os gringos deram, “dreamtears”, mas logo mudaram para lacrimas porque ninguém conseguia pronunciar a desgraça. Era uma nova e misteriosa droga tomando a megalópole de assalto e que segundo os primeiros relatos parecia uma lágrima translúcida, mas ninguém sabia o que era. Nenhuma organização policial conseguiu apreender uma grama sequer do negócio, ele evapora no ar se não é preservado por um processo desconhecido. Autópsias e testes de sangue eram inúteis, nenhuma anomalia ou reagente químico diferente era encontrado. Era como se a coisa em si não quisesse ser estudada. “Especialistas” batiam boca longamente em programas vespertinos de holodrome, dizendo que podia ser histeria coletiva, de origem extraterrestre, macumba ou alguma nanotecnologia russa. Escolha a sua opção favorita.

A garota não passou só por uma overdose, no entanto. Sua garganta estava cortada e o seu peito esgarçado com as colunas à mostra como uma quimera no matadouro. Ela não tinha órgãos internos, como se algo tivesse explodido para fora dela. Cascavel podia ver os restos manchados de clássicos glifos de magicka pelas paredes e pelo corpo dela, mas não apreciou a caligrafia desleixada. Cascavel abaixou o quanto sua artrite permitiu e iluminou embaixo da cama com seu Kraftwerk 2000. Tinha mais uma coisa inscrita ali.

O detetive olhou para a porta e Cassandra estava lá.

“Novata! Que bom que você decidiu dar as caras,” disse Cascavel. “Você identificou os corpos?”

“Os funcionários disseram que o homem sem cabeça era Sandro Pereira, o zelador do hotel, e o DNA confirma. A garota se chamava Patricia Smith, uma prostituta sem licença.”

“Me faz um upload das fichas deles.”

Cassandra encarou o Kraftwerk 2000 de Cascavel.

“Essa coisa sequer tem suporte wireless?”

“Não, mas me passa um fio com plugue de entrada.”

Cassandra balançou a cabeça.

“Nada feito nos últimos vinte anos tem um ‘plugue de entrada’.”

“Me projeta as fichas na parede então.”

Após um suspiro, Cassandra obedeceu e apertou botões holográficos em seu antebraço.

Cascavel não achou nada de estranho nos dados do sujeito, e achou que isso por si só era estranho. A garota estava na cidade fazia apenas seis meses. A típica americana inocente buscando o Sonho Brasileiro, tentando não morrer de fome ou radiação no que restava do hemisfério norte para morrer de alguma outra coisa aqui. Ela era uma professora, PHD em literatura inglesa clássica. Mas prostituição estava em maior demanda nesses dias.

“A IA central ainda está escaneando o sangue deles em busca de venenos ou substâncias ili…” Cassandra estacionou sua sentença no meio conforme Cascavel pegou um pouco do sangue escuro e o colocou na boca, gargarejou e cuspiu fora.

“Não, eles estavam limpos, pelo menos fisicamente,” Cascavel disse com seus dentes sujos pelo sangue. “A garota estava viva quando as entranhas foram levadas.”

“E você sabe disso pelo… gosto do sangue?”

“Pelo cheiro e pela cor também,” Cascavel disse. “Mais algum traço de DNA fora as vítimas?”

“Bom, o lençol tem o equivalente a dois times de futebol de amostras de esperma, mas parece ser antigo. Eu imagino que a garota estava viajando nas lacrimas no quarto por alguns dias. O zelador entrou para checá-la – ou roubar ou violentar – e alguém o surpreendeu por trás e depois pegou ela também,” Cassandra disse.

“Bela teoria. E quanto às pegadas ensanguentadas?”

“Foram plantadas,” Cassandra disse. “Uma tentativa de atrasar a investigação e inflamar os populares.”

Cascavel olhou novamente debaixo da cama e chamou Cassandra.

“Dá uma olhada nisso.”

Havia um estranho desenho ali cheio de símbolos ininteligíveis, ainda mais estranhos que os na garota.

“O que é isso?” Cassandra perguntou.

“Uma tentativa ruim de fazer um selo de Salomão.”

“E que porra é um selo de Salomão?”

“Uma barreira de proteção contra daemônios conjurados, pelo menos quando executado corretamente. Esse está invertido, como se alguém estivesse tentando proteger a vítima sacrificial ao invés de prender uma entidade dentro dela. Esses malditos amadores baixam textos básicos de daemonologie medieval da aethernete e vão em frente tentando conjurar um súcubo,” Cascavel disse. “Provavelmente o zelador aí queria uma escrava sexual.”

“Espera, você tá dizendo que um demônio fez isso?”

“O que eu estou dizendo é que o zelador provavelmente achava que estava conjurando um demônio. E em noventa e nove de cada cem desses casos não tem nada sobrenatural acontecendo. Geralmente alguém enche a cara e alucina que encontrou o capeta. Ou realmente é alguém fingindo algum fenômeno paranormal para distrair a investigação. Como no Scooby-Doo.”

“Que porra é um ‘Scooby-Doo’?”

“Deixa pra lá,” Cascavel disse balançando a cabeça.

“E… em um caso em cada cem realmente tem um demônio assassino à solta?”

Cascavel olhou em silêncio para Cassandra e fumou seu funil boliviano.

“A gente vê isso se for o caso,” Cascavel disse. Ele pegou o seu cobertor e o seu jarro de argila e sentou em uma cadeira.

“E é um pena que a cabeça do zelador não está aqui,” ele disse. “Eu gostaria muito de interrogá-lo.”

Cassandra não entendeu a piada.

“Certo… bom, o gerente está aqui. Se você quiser interrogar alguém vivo pra variar,” ela falou.

“É, fazer o quê? Traz ele então, novata. Mas antes eu preciso de dez minutos. E de um balde,” disse Cascavel.

“Porque você precisa de um balde?” Cassandra perguntou.

Cascavel abriu o jarro de argila, e um fedor pungente tomou conta do quarto.

“Para que eu não vomite no chão,” e Cascavel virou o jarro e bebeu tudo o que havia lá dentro.

Cassandra não precisava de seu processador de dados para saber que, seja lá o que o “investigador especial” bebeu, era pra lá de tóxico. Mas todo tipo de luz de alerta acendeu nos detectores de substâncias do seu monóculo digital.

Era melhor ela arranjar mesmo aquele balde.